SUS deve financiar caneta emagrecedora? Debate sobre Ozivy expõe crise da obesidade no Brasil
Especialistas defendem que o SUS precisará financiar medicamentos como o Ozivy para combater a obesidade. Debate envolve saúde pública, custos e desigualdade social.
A discussão sobre o financiamento da semaglutida pelo SUS deixou de ser uma hipótese distante e passou a integrar o centro do debate sobre saúde pública no Brasil. A declaração do médico-sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa, de que o sistema público “não tem saída” a não ser financiar medicamentos como o Ozivy, da EMS, revela a dimensão da crise provocada pela obesidade no país.
Mais do que uma questão estética, a obesidade hoje é reconhecida mundialmente como doença crônica, associada ao aumento de diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e até alguns tipos de câncer. Ignorar esse cenário significa ampliar gastos hospitalares, elevar afastamentos do trabalho e pressionar ainda mais o SUS no futuro.
Nesse sentido, a fala de Vecina carrega um argumento pragmático: pode ser mais barato tratar a obesidade agora do que arcar com suas consequências depois.
Obesidade cresce e pressiona o SUS
O avanço da obesidade no Brasil se tornou um desafio econômico e sanitário. Dados recentes mostram crescimento acelerado dos índices de sobrepeso na população brasileira, ampliando a demanda por tratamentos médicos e medicamentos especializados.
Segundo Gonzalo Vecina Neto, o SUS não conseguirá ficar distante desse debate por muito tempo. Para ele, o financiamento da semaglutida será inevitável diante da dimensão do problema.
A discussão também evidencia uma desigualdade importante: atualmente, tratamentos modernos contra obesidade permanecem acessíveis principalmente para pessoas de maior renda. Enquanto isso, a população mais pobre — justamente a mais afetada pela má alimentação e pelo sedentarismo — enfrenta dificuldade para acessar acompanhamento especializado.
Ozivy pode mudar mercado de medicamentos no Brasil
A chegada do Ozivy, medicamento da EMS à base de semaglutida, pode alterar o mercado nacional. A produção brasileira tende a aumentar concorrência e pressionar preços para baixo, reduzindo a dependência de medicamentos importados.
Ainda assim, especialistas alertam que o uso da chamada “caneta emagrecedora” não pode ser tratado como solução mágica.
Dietas equilibradas, prática de atividade física e acompanhamento médico continuam sendo pilares fundamentais no combate à obesidade. Sem isso, o risco é transformar o medicamento em apenas uma resposta paliativa para um problema estrutural.
Redes sociais impulsionam banalização das canetas emagrecedoras
Outro ponto importante no debate é o impacto das redes sociais na popularização das canetas emagrecedoras. Nos últimos anos, medicamentos à base de semaglutida passaram a ser associados a emagrecimento rápido e padrões estéticos, impulsionados por influenciadores digitais e celebridades.
Esse fenômeno aumentou a procura pelos medicamentos, mas também ampliou riscos de automedicação e uso inadequado sem supervisão profissional.
Caso o SUS incorpore tratamentos como o Ozivy, será necessário estabelecer critérios rígidos, protocolos médicos claros e fiscalização adequada para evitar desperdício de recursos públicos.
Debate vai além do medicamento
A discussão não deve ser reduzida apenas à distribuição da semaglutida na rede pública. O debate central envolve a forma como o Brasil enfrenta a obesidade como problema de saúde pública.
Sem políticas consistentes de prevenção alimentar, educação nutricional e incentivo à prática esportiva, o país corre o risco de investir bilhões tratando apenas as consequências de uma epidemia que continua crescendo.
Ao mesmo tempo, ignorar medicamentos modernos pode aprofundar desigualdades e aumentar ainda mais os custos futuros do sistema público de saúde.
Fonte:
UOL Notícias – Vecina diz que SUS terá de financiar Ozivy
